A ENCHENTE
Um piano bóia.
Foram-se os sons afogados
no desvario das águas.
A cadeira de balanço passa
levada pela correnteza que,
imprudente, arrasta um cão.
Mais ali,
um álbum de fotografias
rodopia frenético,
fazendo par a um saco de lixo.
Tudo lixo!
Na corredeira passam
rápido
um livro, um oratório, uma boneca,
uma garrafa
e a caixa de remédios.
Um colchão bóia:
Foram-se os sonhos
no pesadelo
de águas barrentas.
Bóia também um coração
anestesiado
sobre a pressão da água.
E a história?...
O homem a vê partir
quase sem tempo
de olhar pra trás.
A história bóia.
O homem vê.
Vê águas imensas
e seus olhos boiam.
E a criança,
alojada nos seus ombros,
vê uma ficção
e não entende
os olhos marejados
do homem,
no desalento do silêncio.
De Lina M.Lisbôa da Silva
(Sobre a Enchente de jan/2000-Publicado no
Jornal O Sul de Minas – Itajubá MG
Nota do Autor da Postagem:
Independentemente de nossas posses, não devemos afastar a possibilidade de sermos afetados.
Independentemente de nossas posses, não devemos afastar a possibilidade de sermos afetados.